quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O Senhor do tempo e Seus desígnios temporais

"Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou, tempo de matar e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de construir, tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar, tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las, tempo de abraçar e tempo de se conter, tempo de procurar e tempo de desistir, tempo de guardar e tempo de lançar fora, tempo de rasgar e tempo de costurar, tempo de calar e tempo de falar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz”.
[Eclesiastes 3:1-8] (NVI)

Este artigo é mais um daqueles que se configuram na categoria desabafo pessoal, não tem cunho doutrinário, nem tem a pretensão de ensinar algo, apenas refletir sobre minhas dores, conquistas, frustrações e realizações. Quem sabe tais postulados possam ser congruentes e afins com os que hão de ler as linhas que se seguem e desta maneira produzir algo de bom, pois como diria um antigo professor da minha época de colegial: “existem três tipos de pessoas: as tolas que erram e nunca aprendem, as inteligentes que erram e aprendem, e as sábias que vêem o erro dos outros e aprendem”. Portanto, use este texto para te ajudar a ser um pouco mais sábio(a). Optarei em utilizar a linguagem na primeira pessoa do singular e terei como pano de fundo as vésperas de meu aniversário de 31 anos de idade. Apesar da pouca idade gostaria de puxar uma cadeira e convidar minha alma a repensar sobre os tempos, convidar meu coração para se assentar e escutar as palavras que nunca foram pronunciadas, convidar meu intelecto a se curvar sobre as lágrimas que ensinam mais que as exaustivas aulas expositivas, e, convidar as minhas vivências para um piquenique onde vamos chorar de tanto rir de meus pessimíssimos e rir de tanto chorar de meus otimismos.

Há momentos que paramos e pensamos no que faríamos diferente, pois bem, vamos começar por ai. Com certeza faria muita coisa diferente! Não zombaria de tantas pessoas que me ombrearam na jornada e que por prepotência julguei a mim mesmo melhor que estes só por puro orgulho. Não me apegaria tanto nas coisas que me vieram às mãos, pois estas coisas sem as pessoas são apenas objetos inúteis e que produzem um saudosismo maquiavélico e sombrio. Não lutaria por tantas causas que invariavelmente me afastaram de quem eu sou e me distanciaram dos propósitos de Deus que acredito produzem vida. Não perderiam tanto tempo querendo mostrar para as pessoas o que elas querem que eu seja, pois tal pretensão gera um sentimento de falsidade no mais profundo do meu ser e que de tanto fingir chega o dia em que não mais se sabe quem se é de verdade. Não mataria tantos sonhos em corações inocentes sob a ambição de que cabia a eu aproxima-los da dura realidade da existência, tal alínea só fez o meu mundo ser mais escuro, pois as utopias são tipo luzes que nos faz acreditar em algo maior do que nós mesmos somos. Não correria tanto, pois velocidade sem direção é a certeza de se chegar a lugar nenhum.

Na contra mão do paragrafo anterior há também aqueles momentos que paramos e pensamos no que fizemos certo, no que fizemos de bom, vamos por esta via agora. Cautelosamente afirmo que fiz pouco isto! Escolhi viver em prol do próximo, da fraternidade, da Igreja, isto foi a melhor escolha em minha vida, mesmo reconhecendo que ainda estou muito longe do padrão esperado por Deus, por mim e pela igreja que sirvo como pastor. Optei por passar adiante o pouco que sei, e nestas três décadas de existência pude perceber as grandes árvores que esta sementinha se tornou em outros, obviamente que poderia ter feito mais, porém foi o melhor possível. Constitui família, dedicando tempo no esforço de fazer estes felizes, aprendendo o altruísmo do amar e a arte de perder para que o outro ganhe, porém reconheço que já fui melhor nisto. Fiz um filho, Gabriel, aqui com apenas oito meses de vida, ele me fez entender e me conduziu a praticar os conceitos mais elementares da vida cristã, como amar, doar, sorrir, abraçar, olhar, sentir... elementos estes que reconheço estavam tão distantes do meu coração por causa do que sou (ou, estou sendo). Enfim, estou vivo, isto é bom, pois sobreviver neste mundo já é uma conquista.

Há aqueles momentos que indagamos acerca do que gostaríamos de ter feito, mas que obviamente não fora feito. Vamos por nossos pés neste solo escorregadio agora. Poxa! Queria ter feito muita coisa! Queria ter lido mais poesias, desta maneira teria aprendido a sentir mais e falar menos. Queria ter olhado mais as estrelas, elas sempre me fizerem vislumbrar a grandeza de Deus e a minha pequenez. Queria ter escutado mais meu coração ao invés de tentar me mutilar a fim de adequar-me as expectativas da sociedade, tristemente ambos perderam. Queria ter sido amigo de mais gente, isto me faria ter mais amigos hoje. Queria ter chorado mais, lamentado meus dissabores, aproveitado meus fracassos, porém aprendi a levantar rápido demais e assim mui em breve me esqueço do porque tropecei, o que provavelmente me fará trupicar outras vezes. Queria ter sorrido mais das coisas bobas da vida, mas me tornei sério demais para vivê-las. Queria ter arriscado mais, mesmo que isto me fizesse perder mais, a estabilidade/previsibilidade é um câncer que me consumiu a coragem, me tornei apenas um ser medíocre.

Verdade seja dita, entre o que eu gostaria que fosse e o que é há um hiato intransponível por causa do fator tempo. De fato não posso mudar o passado, ele está eternizado. Só me resta domar o incontível presente e ser assombrado pelo desbravável futuro. Tudo isto digo não como um lamento pessimista, depressivo e frustrante. Não! Definitivamente não! Contudo, preciso ser honesto comigo mesmo e admitir tais fatos descritos nos parágrafos anteriores como forma de reavaliar a mim mesmo. Por isto, diferentemente do que possa parecer não estou desfalecendo, nem desistindo, e muito menos chutando o balde. Com este discurso (leia-se artigo) estou a adorar o “Senhor do tempo” que de forma inexplicável me brinda com mais um ano de vida. A este Deus atemporal que existe ante da eternidade, e que conduz todas as coisas para o fim que apraz a Si próprio, quero bradar minha rendição, humilhação e fraqueza. Tributando a Ele que eu não sou, mas reconhecendo que Ele é o Grande Eu Sou. Desnudando minha alma e a colocando temporalmente num pelourinho de vergonha para que em nada me glorie, mas me conforte nas sombras da Cruz do Calvário.

Ele é o “Senhor do tempo” e entre Seus designíos há tempo para tudo: “tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou, tempo de matar e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de construir, tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar, tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las, tempo de abraçar e tempo de se conter, tempo de procurar e tempo de desistir, tempo de guardar e tempo de lançar fora, tempo de rasgar e tempo de costurar, tempo de calar e tempo de falar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz” – cf. Eclesiastes 3:1-8. Não gostaria de viver no tempo de morrer, arrancar o que se plantou, prantear, espalhar as pedras, desistir, lançar fora, rasgar, entre outros tempos do gênero, mas não tenho escolha, assim como você caro leitor. Nas páginas da vida não se escreve apenas com os tempos de plantar, rir, dançar, abraçar, costurar, amar, entre outros tempos de bonança. Por isto não me sinto errado pelas minhas desventuras, só me sinto vivo. A boa notícia é saber que se nesta vida nada é eterno, são apenas tempos, então, as coisas podem inesperadamente e simplesmente mudar. Minha oração tem sido que Deus me guie para aproveitar ao máximo os tempos bons e que Ele, nos tempos difíceis, me dê força para não desfalecer.

É impossível entender os tempos! O Deus Eterno rege a vida de pessoas temporais, desta maneira, eu um mero ser mortal nunca compreenderei os designíos dAquele que não sofre o peso do tempo. Mas... não preciso entender muita coisa, pois afinal sou apenas um servo (i.e. escravo) dEle. Ele é o meu Senhor, confio a Ele os meus passos aplaudíveis e os vacilantes. Ele é minha canção, ofereço a Ele meus louvores de gratidão e de frustração. Ele é meu escudo, descanso debaixo de Seus braços fortes depositando a Ele minha fé e minhas descrenças. Ele é meu porto seguro, atraco nEle o que eu sou e o que não consigo ser. Ele é meu amigo, falo com Ele sobre minhas grandes aspirações e meus grandes pecados. Ele é meu Deus, reconheço que Ele sabe o que está fazendo mesmo quando seus feitos não se encaixam nos meus moldes confortáveis. Ele é o meu Pastor, sei então que nada me faltará quer eu esteja nos pastos verdejantes ou no vale da sombra da morte. É... finalmente reconheço que nunca conseguirei entender muita coisa, e acredito que isto seja pelo fato de eu não ter sido criado para ser senhor do tempo, só faço parte de um tempo.

Fortalecido pela cruz de Cristo,
Vinicius Seabra | vinicius@mtn.org.br


Artigo escrito em: 03 de Dezembro de 2012


sábado, 24 de novembro de 2012

Como água no deserto.


por: Ronaldo Lidório
O deserto é possivelmente uma das mais claras representações da ausência de vida e esperança. Beduínos e Tuaregues - povos do deserto - desenvolveram milenares técnicas de sobrevivência para resistirem à angustiante mistura de sol, calor e areia. Anos atrás, atravessei a parte ocidental do Saara e, apesar de estar acostumado com as temperaturas tropicais, nada me preparou para os 54 graus à sombra durante aquelas tardes. Lembro-me que o pensamento mais obsessivo e recorrente era simplesmente água, o elemento mais desejado em terras áridas.
Davi escreveu o Salmo 63 no deserto de Judá, enquanto fugia de Saul. Encontrava-se em um dos momentos mais constrangedores de sua vida. Além de estar no deserto, tomado pelo desconforto e temores natos ao ambiente, seu povo e rei o perseguiam.
Contrariando a natural tendência do descontentamento de coração perante as caminhadas desérticas, Davi revela, ali mesmo na areia, que a sua alma tinha “sede de Deus”. Este parece ter sido o pensamento mais paradoxal que passou pela mente do salmista: a sede de Deus era maior que a sede de água. A busca pela presença de Deus era mais forte que qualquer outra carência humana.
Quando em caminhadas solitárias e perseguidos pelos que antes eram mais chegados que irmãos, devemos nos conscientizar desta verdade transformadora: precisamos mais de Deus em nossas vidas do que água no deserto. C.S. Lewis nos diz que “o amor é o princípio da existência, e seu único fim”. Com isto nos incita a pensar que o amor não é apenas o meio, mas também o propósito final. Somos convidados, em toda a caminhada cristã, a andar de forma paradoxal em expressões de amor: perder a vida para ganhá-la; oferecer a outra face a quem nos fere; esperar contra a esperança; amar, e não odiar, os inimigos; perdoar, mesmo perante óbvias razões para a amargura; desejar mais a Deus do que a água, mesmo quando se vagueia, foragido, por entre terras mais secas.
É nessa caminhada que encontramos descanso verdadeiro. Davi não apenas fala da possibilidade de descanso em Deus, mas o experimenta. Os principais verbos nos versos 6 a 8 estão no presente. Davi se lembra, pensa e canta o descanso em Deus enquanto caminha - não apenas o planeja fazê-lo amanhã. Reconhecer que a presença de Deus é melhor que a vida parece ser o exercício mais transformador – de mente, coração e visão de mundo - que qualquer pessoa possa experimentar.
Somos amados por Deus e esse fato deveria definir a forma pela qual vemos a vida e o mundo ao nosso redor. Ser amado por Deus é entender que somos convidados a um relacionamento eterno, é perceber que estamos em lugar seguro e saber que não há nada melhor.
A construção desta canção do deserto revela a alma de Davi. No verso 1, ele expressa que tinha sede de Deus. Nos versos 2 a 5, ele louva a Deus pelo Seu amor que é melhor que sua própria existência. Nos versos 6 a 8, Davi descansa no Senhor e, finalmente, nos versos 9 a 11, ele declara sua confiança na vitória sobre os inimigos.
Encontro-me rotineiramente com pessoas as quais, à semelhança de Davi, experimentam a solidão do deserto, o constrangimento da fuga e a incerteza dos que não sabem para onde vão. A vida, nesses momentos, torna-se mais lenta, opaca e pesada. Porém, justamente em ocasiões assim, a presença de Deus nos convida a crer um pouco mais e nos encoraja a continuar caminhando. Em um relance olhamos para trás e percebemos que no passado o Senhor foi fiel, mesmo no dia mais escuro. Amanhã não será diferente. A presença de Deus sempre traz à memória o que pode nos dar esperança.
Lutero, citado por Mahaney em seu livro “Glory do Glory”, diz-nos que: “esta vida, portanto, não é justiça, mas crescimento em justiça. Não é saúde, mas cura. Não é ser, mas se tornar. Não é descansar, mas exercitar. Ainda não somos o que seremos, mas estamos crescendo nesta direção. O processo ainda não está terminado, mas vai prosseguindo. Não é o final, mas é a estrada. Todas as coisas ainda não brilham em glória, mas todas as coisas vão sendo purificadas”.

Que o Senhor se mostre presente em nossas vidas. Nestes dias o deserto se tornará lugar de alegria e descanso.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Competência e Eficácia




Relação entre conhecimento e prática na missão
por: Ronaldo Lidório

Observando o universo cristão sob o ângulo da nossa missão - sermos sal da terra e luz do mundo - percebemos claramente a necessidade de equilíbrio entre competência e eficácia.

Competência é a capacidade adquirida em alguma área. Isto é, capacidade para aprender uma língua, estudar uma cultura, liderar uma equipe, evangelizar um grupo, coordenar um projeto social ou plantar uma igreja. Não é a ação em si, mas a aptidão de agir. A competência é reconhecida pelos que estão ao redor, produz segurança e transmite credibilidade.

Já a Eficácia é a capacidade transformada em ação. Enquanto a competência está enraizada na capacidade, a eficácia é demonstrada na realização. Ela está presente, especialmente, em processos mais objetivos, proativos e simplificados. Podemos pensar que “competente” é quem sabe o que está fazendo e “eficaz” é aquele que dá conta do recado.

Há também quem diga que a distância entre a competência e a eficácia é a mesma entre o engenheiro e o construtor. Precisamos de ambas, ou melhor, de um equilíbrio entre as duas forças. A competência nos direciona à aptidão para um trabalho sério, bem embasado e com conhecimento de causa. A eficácia nos leva para a reta final, para a produção, ajuda-nos na objetividade e na manutenção do foco de nosso trabalho.

Observando a caminhada da Igreja brasileira - e sua relação com a missão - causa-me temor perceber os dois extremos, igualmente danosos. Competência sem eficácia gera especialistas, mestres e doutores das áreas de conhecimento da missão, porém sem iniciativas aplicadas aos que sofrem, desconhecem o Evangelho ou necessitam de pastoreio. Eficácia sem competência gera ações pragmáticas, desmedidas e, mesmo, antibíblicas, que mais espalham do que juntam.

Destino estas próximas linhas àqueles que se encontram na segunda categoria - competência sem eficácia -, por entender que é um perigo mais iminente em nossos círculos. Enquanto valorizamos de forma exclusivista o conhecimento e as respostas em detrimento das relações e iniciativas, corremos o risco de nos perder nas questões “de meio”. O perigo é chegarmos ao final de uma temporada com muito conhecimento, mas pouca aplicação. Muita compreensão, mas pouca produção. Com mais competência que eficácia.

É rotineiro observar que assuntos de menor importância (ou pouco associados ao nosso alvo maior) ganhem o centro do palco de nosso dia a dia, o que pode nos levar à frustração de vida e ministério em algum ponto.

Devemos sempre relembrar a pergunta chave: qual o presente objetivo de minha vida e ministério? A resposta deve nos conduzir de volta ao essencial. Paulo entendia que a finalidade da igreja era a glória de Deus e a sua prioridade era proclamar Cristo onde não havia sido anunciado. Estes são os grandes alvos. Ao longo da estrada estes alvos maiores se traduzem em objetivos temporários como o testemunho na família, o discipulado de um irmão, a colaboração no orfanato, a ajuda ao que está caído ao longo do caminho ou a busca por uma vida mais santa.

Neste caso é importante que nos perguntemos se as práticas associadas a estes objetivos estão no centro do palco da nossa vida. E para saber localizar o assunto no palco você pode seguir esta pista: o que consome o seu tempo, energia e dinheiro é o que está no centro do palco.

Gosto de observar missionários. Ouvi-los contando suas histórias e ver como agem nos campos. Há algum tempo, tivemos a oportunidade de trabalhar com aproximadamente 30 missionários que atuam em áreas desafiadoras do norte da Índia. Não tenho dúvida: os que conseguem equilibrar a competência e eficácia completam a carreira olhando com mais alegria para trás. Esses aproveitam a oportunidade para conhecer as estratégias, técnicas, política, língua, cultura e vida em equipe, mas ao mesmo tempo não se deixam amarrar com as questões “de meio”. Correm para a realização dos objetivos prioritários. Os que não equilibram tendem a se frustrar, seja por conhecimento sem prática ou prática sem conhecimento.

É preciso simplificar nossos pensamentos e dias para caminharmos bem, tendo em mente, de forma clara, qual o presente objetivo do Senhor para cada um de nós, na estrada que trilhamos. Pensemos em uma pequena equipe que chegou a Nova Deli para trabalhar com crianças dalit. Se pela manhã estudam a estratégia para o trabalho com as crianças abandonadas, preparam o material e conduzem o treinamento necessário, e pela tarde e noite estão nas ruas conversando com essas crianças e conduzindo-as a um abrigo - e a Jesus -, está clara e abençoada conciliação entre competência e eficácia. É simples assim.

Que o Senhor nos ajude a equilibrar sempre a balança em nossas vidas e nos livre de correr atrás do vento. Coloquemos no centro do palco aquilo que, para o Senhor, é mais valioso.

fonte: http://www.ronaldo.lidorio.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=156&Itemid=26